
NAS ENTRELINHAS DA TRAMA...
O universo dos livros de "Os |Guardiões da Humanidade" é amplo e contém muitas possibilidades narrativas. Personagens que vem e vão, muitas vezes sem a devida abordagem, apesar da riqueza de histórias e de possíveis contribuições para o bom desenrolar da trama. A seção "Nas entrelinhas da trama" visa justamente abordar momentos únicos vividos por personagens que já passaram ou ainda vão encontrar com o leitor no desenrolar da trama. Afinal, caro leitor, este universo ficcional foi criado durante anos, durante uma campanha de RPG narrada pelo saudoso amigo André S.L. Oliveira. Não só a saudade, Andre também nos deixou órfãos de muitas subtramas, que envolviam seus personagens coadjuvantes e, em alguns momentos, até os principais antagonistas. Aproveito esse modesto espaço para discorrer um pouco mais sobre cenas pensadas e passados discutidos. Deixo em aberto se um dia essas cenas aqui escritas estarão ou não em um volume específico... Por enquanto, aproveitem para matar um pouco a curiosidade. Outrossim, ainda informo: Aqui é um espaço em eterna construção. Então, as histórias irão se somar à medida em que o escritor tiver tempo de atualizar este conteúdo. De antemão, agradecemos a todos pelos futuros feedbacks (comentários), certos de que toda a crítica serve para o crescimento desse universo.
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1 - Como aconteceu o acidente do Skybus? (pela visão de Kristen)
Obra: Os Guardiões da Humanidade - O legado do Falcão (2ª Edição)
Este texto encontra-se atualmente em revisão... Assim que for concluído, será novamente repostado. Agradecemos a paciência de todos.
2 - Quem é Kaluanã?
Obra: Os Guardiões da Humanidade - O mistério de Redstone (1ª Edição)
Mais de um século atrás...
Em algum lugar da Floresta Amazônica...
Kaluanã[1], um jovem indígena descendente da tribo Tupi, tinha pouco mais de dezoito anos de pele morena, além de longos e lisos cabelos negros, possuía também tatuagens tribais desenhadas por todo o seu corpo e partes do rosto, seguia pela noite fria no vagão de um trem para ele desconhecido, com suas mãos e pés presos por grilhões, confinado a um tipo de gaiola, como um animal qualquer.
E ele não era o único ali. Ao redor dele, muitos mais estavam ali, de diversas raças, brancos, negros e amarelos, tanto homens quanto mulheres, de idades diversas, de velhos a crianças, todos oriundos de lugares tão distintos que o jovem Kaluanã nem fazia ideia de que existiam. Todos, assim como ele, estavam amarrados e amordaçados, limitados por gaiolas de ferro trançado, seguindo naquele velho e barulhento vagão, sem esperanças nem certezas.
Eles estavam ali confinados por tempo suficiente para perderem as contas. Tempo mais que suficiente para tornar o mais confiante dos guerreiros tupi em um completo desesperado.
Depois de tantos dias e noites aprisionados, o cansaço da desconfortável viagem já tinha destruído completamente a resistência dos prisioneiros. A ira, o desespero, os gritos e os surtos, tudo tinha cessado. Não havia mais força para reagir, gritar ou se queixar. Todos estavam exaustos. Poucos ainda se forçavam a abrir seus olhos. Muitos só queriam morrer. Ninguém, porém, fazia a menor ideia nem sequer imaginava o motivo que os trouxera até ali, com exceção do próprio Kaluanã.
Desde muito cedo, na verdade, ainda criança, sabia que tinha algo de diferente. Não uma habilidade física qualquer ou uma capacidade típica dos gênios. Não, não era esse o caso. Ele era especial. Igual a todos na aparência, mas tinha em si algo muito diferente. Sentia e entendia as forças da natureza como nenhum outro. E todos na sua tribo sabiam disso e por isso o temiam. Criado por um poderoso xamã[2], era tido como a encarnação de um antigo espírito protetor.
– Piiiiiiii!!! – soou perturbadoramente um apito e logo após uma voz forte e confiante se fez ouvir: – acordem infelizes!
Kaluanã não sabia quem era que gritava, nem quantos eram seus carcereiros, mas sabia que eram da tribo dos homens brancos, terríveis e cruéis como sempre foram com seu povo ao longo dos séculos.
Então, de súbito, abriram-se as portas do vagão. Assim que a difusa luz do dia acabou com a sombria escuridão daquele lugar malcheiroso, os prisioneiros fecharam seus olhos, cegos por um instante. Haviam passado muito tempo confinados ali. Uma semana sem comer nem beber, tendo que fazer suas necessidades ali mesmo, em suas minúsculas gaiolas, como se fossem simples animais e não seres humanos.
Um brutamonte mal encarado, vestido com um estranho traje que lembrava um uniforme militar, abriu a primeira gaiola e, estendendo seu braço em direção a um miserável ali encolhido, puxou-o para fora com brutalidade, lançando-o ao chão.
Logo, mais soldados juntaram-se ao primeiro, todos armados e mal-encarados. E, em instantes, todas as gaiolas estavam abertas e os prisioneiros alinhados fora do caminhão.
À frente deles, puderam ver ainda a vasta Floresta Amazônica.
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Por um instante, Kaluanã se alegrou em ver novamente o verde das matas e sentir o fresco da floresta. Sua alegria, porém, durou pouco. Aquela não era a sua floresta nem estava ele de volta à sua casa. Aquela floresta cheirava a morte. Algo na profundeza daquelas matas fez o corajoso Kaluanã tremer de medo. Seus instintos lhe diziam que os espíritos naquele lugar estavam tenebrosamente irritados.
Presos por grilhões, agora também unidos um a outro por meio de correntes de ferro, eles foram forçados a seguir a pé por uma trilha. Depois de andarem por quase um dia inteiro, justamente quando a escuridão já tomava conta da mata, antecipando-se a noite fria, eles finalmente chegaram a seu destino.
À frente deles, uma caverna encrustada na base de uma pequena elevação. Algo antigo, nada natural. E também, algo mais recente, como os equipamentos dispostos em todo o descampado, assemelhando-se a um tipo de escavação arqueológica, com diversos trabalhadores espalhados pela vastidão da floresta desmatada.
Ali, estranhas ruínas se evidenciavam. Para os prisioneiros mais instruídos, aquele parecia-se até com um sítio arqueológico, que revelava, em meio aos troncos de árvores cortadas e solo remexido, os portais arruinados de uma antiga cidade desconhecida.
– O que quer que estejam procurando, deve ser enorme – ouviu Kaluanã, de um dos prisioneiros.
Só então Kaluanã percebeu que mesmo não falando aquela língua, ele os entendia como se falassem na sua. E isso não tinha sido assim, até chegarem àquele lugar, um lugar que Kaluanã sentia emanar um poder totalmente sobrenatural, vindo especialmente daquele estranho portal em ruínas.
De rochas douradas, aquele portal deveria ter sido fabuloso e também muito poderoso. Era compreensivo que aqueles homens que o aprisionaram estivessem tão interessados em o reconstruir.
Nem ele, nem ninguém teve muito tempo para admirar a devastação feita ou a beleza das ruínas descobertas, pois foram logo empurrados em direção ao gigantesco abismo que ficava bem no meio dos dois grandes zigurates que formavam o portal arruinado.
Ao se aproximarem dele, contemplaram abismados a existência de uma rústica escadaria feita inteiramente de rochas douradas que desciam em espiral pelas paredes do abismo a perder de vista. Era tão profundo e ainda mais assustador com a escuridão da noite. Ninguém conseguia enxergar seu fim.
Então, seguiram em uma descida desanimadora.
Para Kaluanã, quanto mais desciam, mais crescia a opressão em seu peito, como se algo de muito tenebroso estivesse à espreita deles lá embaixo.
Pouco a pouco a escuridão tornou-se ainda mais intensa. Via-se apenas a luz bruxuleante das tochas fixadas espaçadamente na parede rochosa e barrenta. O estranho percebido por Kaluanã era que a escuridão da noite que se aproximava era distinta da escuridão daquele lugar. Aquela não era uma escuridão qualquer. Existia algo ali, Kaluanã bem sabia. Seu mestre xamânico havia lhe ensinado a discernir muito bem isso.
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Assim, depois de descerem por quase meia hora, eles enfim chegaram ao fundo do precipício, onde uma grande estátua de uma serpente alada de três cabeças os aguardava, bem no centro.
Ao lado da tenebrosa estátua, pequeno em comparação a ela, mas tão assustador quanto, estava um homem de pele extremamente branca, alto e de corpo esguio, com um traje sacerdotal e um incensário, ferramentas essas que Kaluanã nunca vira antes.
Ao olhar com mais atenção para aquele rosto, Kaluanã segurou a respiração, aterrorizado.
O que quer que fosse aquele ser. Não era um ser humano qualquer. Não mais... Havia bandagens encardidas a cobrir partes do seu rosto. Mesmo assim, via-se sem dificuldade que no lugar do nariz existia apenas um buraco afunilado que entrava para dentro do seu crânio. Os poucos cabelos em sua cabeça pareciam fiapos soltos, esquecidos. O branco que vira de relance não era de sua pele e sim dos ossos de seu crânio. Definitivamente, aquilo que via à sua frente, não estava vivo. Não poderia estar vivo. Mesmo assim, ao olhar em seus olhos, aquelas duas chamas luminosas, de um verde arroxeado, Kaluanã via o poder dos espíritos antigos, os maus espíritos, vivos e prontos para engolir o mundo, como seu mestre um dia viu em seus sonhos.
E então, para o pavor deles, o tenebroso sacerdote rompeu o silêncio:
– Ajoelhem-se, escravos, diante do seu novo deus... – apontou com sua mão em direção à estátua, revelando por entre as bandagens que envolviam seu corpo toda a verdade de sua existência.
“E’õgue ekove[3]”, pensou Kaluanã, lembrando do seu treinamento xamânico. Agora, não tinha mais dúvidas.
E, enquanto a fumaça do maldito incensário envolvia lentamente um por um dos prisioneiros, o imortal sacerdote do culto secreto encarando a todos com um sorriso esquelético e com os olhos a brilhar em um roxo vivo e assombroso. Sem cerimônia, ele apenas ergueu seu incensário e declarou, por fim: – Chegou a hora de servirem a um propósito maior...
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[1] Kaluanã – significa “grande guerreiro” segundo a tribo Tupi.
[2] Nome dado a sacerdotes das tribos indígenas a quem se atribuíam poderes inexplicáveis, assim como o poder de se comunicar com os espíritos.
[3] Corpo morto que continua vivo.
Continua...

